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Qualquer um, medido a besta intelectualizada, caso do modesto editor do blog, apresenta-se como fã de Hemingway. Li e reli o Velho e o Mar e Paris é Uma Festa e não me furto a relê-los, dentre outros do mestre. Agora, navegando, encontrei texto de Eduardo Haak, e peço-lhe permissão para reproduzir.
Divirtam-se.
TALVEZ vocês já tenham feito o teste: depois de uns anos que a gente leu um determinado livro, vamos puxar o que lembramos dele e nos damos conta de que não é muita coisa - e que, pior, as coisas que lembramos geralmente são irrelevantes. De Uma Estréia na Vida, do Balzac, eu lembro de dois moleques zoando com um cara, dizendo que ele parecia um burguês vulgar, um fabricante de velas, quando o cara na verdade era um aristocrata que estava viajando incógnito, não lembro mais por quê. Lembro que Lucy Tantamount, de Contraponto, do Aldous Huxley, uma hora esquece um livro raro na chuva, destruindo-o. Lembro que o Sherlock Holmes, em O Xangô de Baker Street, larga a cocaína e vira maconheiro. E por aí vai. Essa falta de seletividade da nossa memória pode significar duas coisas: ou que nosso apetite pelo irrelevante é maior que pelo essencial (que somos, portanto, falhos como leitores), ou que o livro em questão que tenhamos lido na verdade não era relevante, sobrando dele depois em nossa memória só coisas como um livro raro esquecido na chuva. (Sim, acho o Aldous Huxley um péssimo romancista, pensador de araque, mistificador de deploráveis experiências psicodélicas e, como se já não bastasse, o cara ainda era mais feio que mudança de pobre, parecendo uma mistura do Abraham Lincoln com aquele sujeito de chapéu da farinha Kellog's!).
No caso de Paris É Uma Festa (A Moveable Feast), de Ernest Hemingway, não temos por que temer essa falta de seletividade, já que o livro é, por excelência, um volume de fuxicos, de irrelevâncias deliciosas que, se por um lado não oferecem grandes verdades aos leitores (seja lá que merda signifique "grandes verdades"), por outro humanizam essas figuras todas do modernismo: Gertrude Stein, Ezra Pound, Ford Maddox Ford, James Joyce e tutti quanti - pra não falar do próprio Hemingway.
O livro conta histórias do tempo em que ele viveu em Paris, o início de sua carreira, as pedreiras que enfrentou, as durezas, etc. Desse trecho só lembro dele contando que apontava seus lápis com gilete, pois esse era um processo mais econômico do que se ele usasse apontador. Mas o filé mignon do livro é a parte em que Hemingway fala de sua relação com o Scott Fitzgerald. A darmos crédito ao que Ernest conta, Scott era um sujeito suscetível, hipocondríaco e fraco. Sem negar o grande talento literário do amigo, Hemingway parece que quer lhe dar o troco, rebaixando-o como ser humano. O prazer sádico com que ele escreve sobre episódios vexatórios pelos quais Scott passou trai, sem dúvida, rancor e ressentimento. Talvez Hemingway enxergasse no amigo um talento maior que o seu - coisa que a posteridade está tendendo a confirmar - daí essa hostilidade toda? Acho possível. Acho possível e provável.
Bom, deixemos as especulações profundas de lado e voltemos aos fuxicos. O capítulo mais hot do livro se chama Uma questão de medidas e conta o seguinte: Zelda Fitzgerald, depois que teve um caso com um aviador, passou a implicar com as medidas do bilau do marido. Scott acabou ficando cabreiro, achando que era mesmo mal-dotado. E não é que ele foi consultar seu amigo (muy amigo...) Hemingway pra tentar dirimir suas inquietações?
O.k., Hemingstein, Scott podia ser corno e mal-dotado, mas um cara que escreveu The Great Gatsby e Tender is the Night podia ser corno e mal-dotado o quanto quisesse.
Falô, bicho?

criado por oswaldoduarte
13:03:19